Trump usa força política e pressão econômica para moldar a América Latina, diz especialista

A América Latina vive uma guinada conservadora. Nos últimos três anos, o eleitorado da região elegeu nas urnas uma sucessão de nomes da direita: Javier Milei na Argentina, Daniel Noboa no Equador, Santiago Peña no Paraguai, Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Keiko Fujimori no Peru e Abelardo de la Espriella na Colômbia. Com a posse de Espriella em agosto, a região soma 12 chefes de Estado de direita. No início de 2023, eram 11 países governados pela esquerda.
Diferentemente da safra neoliberal dos anos 1990, que teve entre seus principais nomes Carlos Menem na Argentina, Alberto Fujimori no Peru, Carlos Salinas de Gortari no México e Carlos Andrés Pérez na Venezuela, os novos líderes dependem menos de partidos e mais da própria imagem. A agenda também mudou, incorporando segurança pública e imigração como resposta a um desgaste institucional comum aos países da região, ao lado da pauta econômica que já era central nos anos 1990. Trump aparece como fiador dessas candidaturas, com apoio que varia do retórico ao financeiro.
O fenômeno importa ao Brasil, que em outubro vai às urnas para eleger seu próximo presidente, com Lula tentando a reeleição num cenário de polarização semelhante ao dos vizinhos. Flávio Bolsonaro mantém competitividade mesmo em meio a crises de campanha, enquanto Renan Santos, do Missão, aparece como o principal replicador do modelo de comunicação direta que rendeu resultado a Bukele e Milei.
Para explicar esse cenário, o GSW Brasil entrevistou Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM e especialista em América Latina.
GSW BRASIL Nos últimos anos, a América Latina elegeu uma sequência de nomes de direita: Milei na Argentina, Noboa no Equador, Bukele em El Salvador, Santiago Peña no Paraguai, Rodrigo Paz na Bolívia, José Antonio Kast no Chile, Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. Hoje são doze governos latino-americanos de direita. Como a senhora lê esse momento? Existe fôlego para essa hegemonia durar?
Denilde A América Latina sempre se moveu em pêndulos políticos: passamos por uma fase mais à esquerda e agora entramos em um ciclo focado na direita. Esses novos governos compartilham uma lógica comum: refletem um desgaste profundo das instituições democráticas, decorrente de escândalos de corrupção, baixo crescimento econômico e da percepção de que as gestões anteriores não responderam às demandas da sociedade.
Paralelamente, há um movimento global de ascensão de grupos de direita – tanto na Europa, com o avanço da extrema-direita, quanto nos Estados Unidos, com o movimento MAGA. Há, portanto, uma confluência entre a conjuntura regional de alternância e um contexto global que fortalece esse campo no momento.
É difícil prever se esses governos se sustentarão, pois o eleitor latino-americano tem um perfil pragmático, que testa os governantes. Sem resultados práticos no dia a dia da população, a tendência é uma nova mudança ideológica ou a eleição de opositores. Por isso, a sustentação desta direita depende mais da entrega de resultados do que de uma identidade ideológica consolidada.
O Brasil exemplifica essa dinâmica. Bolsonaro venceu em 2018 e, após um governo marcado por dificuldades e respostas insatisfatórias, o eleitorado optou pelo retorno da esquerda, a despeito da forte polarização. O eleitor atua nesse papel de teste porque a América Latina ainda enfrenta fragilidade institucional e alta fragmentação política. É essa estrutura fragmentada que viabiliza alternâncias constantes no poder.
Ainda assim, esta nova onda pode ganhar fôlego – diferente do que ocorreu nos anos 1990. O alinhamento com um movimento forte nos Estados Unidos e a criação de alianças regionais consolidadas podem garantir maior sustentação a esses governos, em um cenário global de enfraquecimento democrático.
GSW BRASIL A senhora citou a safra neoliberal dos anos 1990, que teve nomes como Menem na Argentina, Fujimori pai no Peru, Salinas de Gortari no México, Sánchez de Lozada na Bolívia, Carlos Andrés Pérez na Venezuela. O que a nova safra traz de diferente? Dá para tratá-los como um bloco único ou cada um responde a uma agenda própria, como a liberal de Milei e a securitária de Bukele?
Denilde A principal diferença está na origem política. Nos anos 1990, os líderes surgiam de partidos tradicionais. Ainda que houvesse a novidade do outsider em alguns casos, a maioria operava dentro do sistema partidário. Hoje, vemos um deslocamento para uma personalização muito mais acentuada, fruto do enfraquecimento das legendas. A atenção do eleitor recai sobre os indivíduos, e não sobre as siglas.
Essa dinâmica reduziu a preocupação dos mandatários com a institucionalização e com a negociação política para a implementação de pautas. A centralidade do processo passou a ser a figura do candidato, operada por canais de comunicação mais ágeis e diretos, como as redes sociais.
A agenda política também se transformou. Se nos anos 1990 o foco era estritamente econômico – centrado no Consenso de Washington e em reformas liberais – hoje a pauta econômica divide espaço com pautas comportamentais, culturais e de um forte conservadorismo social.
Apesar de compartilharem o discurso personalizado, o uso da comunicação direta e uma postura antipolítica, esses líderes não formam um bloco homogêneo. Eles atuam em contextos e países com graus distintos de institucionalização, o que impõe mais amarras para uns e dá mais margem para outros. Há vertentes abertamente autocráticas, como a de Bukele, e governos que ainda dependem da busca por consensos internos para governar.
Suas agendas também variam: Milei prioriza a economia, enquanto Bukele foca na segurança. No entanto, temas como segurança, imigração e economia funcionam hoje mais como ferramentas de engajamento da base aliada do que como projetos estruturados de reforma política.
GSW BRASIL E qual é o tamanho da influência do Donald Trump nessas eleições? Não só sobre a retórica desses eleitos, mas para o movimento em si?
Denilde A influência varia conforme o país. Na Argentina, o impacto foi expressivo, sobretudo nas eleições legislativas recentes, ao reforçar o discurso de que a estabilidade econômica do país depende do apoio e dos aportes financeiros dos Estados Unidos. Na Colômbia, o apoio sinalizou que uma vitória da direita fortaleceria as relações bilaterais e a agenda de segurança.
Trump tem demonstrado como o alinhamento com Washington pode gerar contrapartidas aos países aliados, usando a Argentina como vitrine. Em outros cenários, observa-se uma interferência mais direta no processo eleitoral. Além da figura de Trump, o movimento MAGA atua mobilizando redes e eleitores conservadores pela região.
No plano retórico, Trump utiliza sua capacidade de mobilização para respaldar candidatos aliados ou pressionar adversários, indicando que recursos americanos serão direcionados a quem apoiar sua agenda. Por outro lado, governos alinhados a posições opostas enfrentam pressões diplomáticas, tarifas e sanções, como se observa nas relações com o Brasil, o México e o Canadá.
GSW BRASIL Entramos na questão da segurança pública, que é um dos grandes motores argumentativos de boa parte desses líderes, especialmente o Bukele. Por que a direita consegue capturar essa pauta? Temos exemplos concretos com êxito suficiente em segurança pública para que esse grupo capture o tema?
Denilde El Salvador, apesar de todas as ressalvas relativas a violações de direitos, é um modelo de exportação devido à queda drástica nos índices de criminalidade e à sensação de controle transmitida à população. Governos que adotam posturas mais duras no combate ao crime costumam transmitir uma percepção de eficiência mais imediata do que aqueles que aplicam políticas progressistas. Pesa mais para o eleitor a sensação de que o Estado retomou a ordem do que a avaliação detalhada dos métodos utilizados.
A direita também demonstra eficácia comunicacional ao inflar a percepção de insegurança durante os períodos eleitorais, mesmo em países com baixos índices de criminalidade. Na Colômbia, o aumento dos indicadores de violência durante a gestão Petro reforçou a narrativa de que o Estado perdeu o controle e de que abordagens progressistas são brandas.
Esse fenômeno é visto também na pauta migratória. Embora a América Latina não registre volumes de imigração comparáveis aos dos Estados Unidos ou da Europa, a mobilidade decorrente da crise venezuelana tornou o tema central em pleitos no Chile, na Colômbia e na Argentina. A narrativa explorada é uniforme: a acusação de que falta pulso ao Estado para gerir as fronteiras e combater ilícitos.
GSW BRASIL Vemos, inclusive no Brasil, candidatos que têm o Bukele como inspiração. Esse modelo de segurança pública é replicável em paises de maiores dimensões? E qual é o perigo, pensando numa erosão democrática para a região, se esse modelo pudesse ser replicado em países de maiores dimensões?
Denilde A replicação do modelo salvadorenho é improvável em países com sistemas judiciários mais complexos e independentes, pois a estratégia de Bukele exige uma centralização quase absoluta do Poder Executivo e a supressão de garantias no sistema prisional. O Equador tentou implementar medidas semelhantes por dispor de mecanismos mais centralizadores, o que gerou um processo visível de erosão democrática.
Em países onde os freios e contrapesos institucionais ainda operam, há barreiras claras a esse tipo de ação. No Brasil, por exemplo, como a segurança pública é gerida primordialmente pelos estados, a aplicação de um modelo nacional unificado e centralizado enfrenta limitações constitucionais.
Por isso, o que se observa é uma adaptação retórica e pontual: a defesa de forças policiais com maior liberdade para o uso da força e o endurecimento das condições prisionais. A inspiração no modelo serve como demonstração de autoridade e controle, sem que haja necessariamente a replicação integral da estrutura autocrática de El Salvador.
GSW BRASIL A senhora falou do Milei e da questão da imigração. Por que isso funciona como arma política para esse tipo de eleitor?
Denilde Funciona porque se conecta a um sentimento mais amplo de Insegurança – não apenas física, mas econômica e trabalhista. Atribuir essas incertezas a fatores externos tem forte apelo narrativo. Ao amplificar esses temores, esses governos se apresentam como os únicos capazes de restaurar a ordem.
Demandas por empregos e por serviços públicos, como saúde e educação, são frequentemente apresentadas como recursos disputados com a população estrangeira. No caso de Milei, o uso da pauta migratória cumpre dois papéis: estimula o sentimento nacionalista ("nós contra eles") e desvia a atenção das dificuldades econômicas que seu governo ainda tenta equacionar.
As realidades regionais, contudo, são distintas. Colômbia e Chile absorveram contingentes migratórios substancialmente maiores do que a Argentina. Ainda assim, a pauta é instrumentalizada para mover o debate público para um terreno de apelo emocional, poupando a gestão de desgastes em tópicos centrais, como a economia.
GSW BRASIL Olhando para esse movimento na América Latina, é provável que o Brasil reproduza o mesmo resultado dos vizinhos nas urnas ou, pelas características particulares do Brasil, podemos ver um movimento completamente diferente dos nossos vizinhos?
Denilde Há um traço comum em quase toda a região: processos eleitorais extremamente polarizados e decididos por margens muito estreitas, refletindo sociedades divididas. Esse é o cenário esperado para o pleito brasileiro. A candidatura associada ao bolsonarismo, representada por Flávio, demonstra resiliência por se ancorar na polarização entre os sentimentos anti-PT e antidireita.
Sob essa ótica, o Brasil segue a tendência regional. A diferença reside na complexidade do nosso sistema político: o tamanho do eleitorado, o número de partidos e a força das alianças estaduais e do Congresso – que detém fatia expressiva do orçamento – impõem uma dinâmica própria.
Outra variável relevante neste ciclo é o peso da agenda externa: a presença de Milei no apoio à candidatura de oposição e a atuação mais ostensiva de setores norte-americanos para influenciar o debate político local inserem um componente internacional mais acentuado do que o observado em 2022.
GSW BRASIL Quais foram os maiores erros dos governos anteriores de esquerda que culminaram nessa nova remodelagem da estrutura política em toda a América Latina?
Denilde Apontaria dois fatores centrais. O primeiro é a incapacidade de enfrentar a corrupção e o uso indevido de recursos públicos, o que consolida a percepção de que o sistema político tradicional é conivente com essas práticas, alimentando o discurso antipolítica.
O segundo foi a falha em entregar respostas materiais rápidas à população. Embora os indicadores socioeconômicos tenham mostrado avanços em determinados períodos, esses ganhos não se traduziram em uma percepção consistente de melhoria na qualidade de vida. Esse descompasso entre estatísticas e a realidade percebida fragilizou a defesa do modelo social e econômico tradicional.
Ademais, as forças de direita adaptaram-se com maior agilidade aos novos ecossistemas digitais de comunicação, utilizando estratégias de engajamento direto e mobilização que os partidos tradicionais — tanto de esquerda quanto de centro — não conseguiram acompanhar, resultando em um forte distanciamento das bases populares.
GSW BRASIL Sobre essa disparidade entre dados e percepção, vemos acontecer com alguns índices, principalmente econômicos, aqui no Brasil. O problema é majoritariamente comunicação?
Denilde A comunicação é central, mas a questão vai além do volume de propaganda: trata-se do formato e do canal. Governos tradicionais enfrentam dificuldades para traduzir medidas institucionais em uma linguagem acessível para o ecossistema digital atual.
Existe também um descompasso estrutural. O rito democrático tradicional é lento, pautado por negociações e pesos e contrapesos, enquanto a expectativa da sociedade atual é por respostas imediatas. Essa assimetria gera desconfiança e afasta, em especial, as gerações mais jovens dos canais institucionais de debate.
Figuras políticas mais jovens, de diferentes espectros ideológicos, capturam essa dinâmica com mais facilidade. Para lideranças consolidadas, como o presidente Lula, reconfigurar uma linguagem política estruturada ao longo de décadas representa um desafio substancialmente maior.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.