Quase um em cada três brasileiros não tem reserva de emergência; veja como começar a montar a sua
Principais pontos
- Cerca de 31% dos brasileiros não possuem reserva de emergência e a maioria dos que guardam dinheiro ficaria sem recursos em até seis meses.
- Especialistas em investimentos dão dicas de como formar essa reserva e onde investir atualmente.
- Os investimentos mais indicados são os de baixo risco, com liquidez diária e rentabilidade referenciada pelo CDI, confira abaixo as dicas.

Quase um em cada três brasileiros não tem nenhuma reserva financeira para enfrentar imprevistos. É o que revela a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, divulgada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), em parceria com o Datafolha, em abril de 2026.
O levantamento mostra que 31% da população não possui dinheiro guardado para emergências. Embora 69% dos entrevistados afirmem ter alguma reserva financeira, boa parte desse grupo ainda tem um colchão financeiro limitado. Entre eles, 20% conseguiriam manter as despesas por apenas um mês, enquanto apenas 3% afirmam ter recursos suficientes para cinco anos ou mais. O levantamento ouviu 5.832 pessoas de todas as regiões do país entre 4 e 21 de novembro de 2025.
Como montar uma reserva de emergência?
Para o superintendente de negócios da cooperativa financeira Sicoob Credicom, Ericke Sandro Perim Duarte, a construção de uma reserva de emergência começa antes mesmo da escolha do investimento. "Quando você começa a vida de trabalho, o ideal é sempre economizar uma parte daquilo que ganha. Com o tempo, isso faz com que você construa uma reserva para quando surgir uma emergência", afirma Duarte.
Quanto preciso guardar?
Não existe um valor único que sirva para todos, diz Eduardo Mira, investidor profissional e analista CNPI. O que é preciso levar em conta no cálculo para começar a separar algum dinheiro é considerar primeiro os gastos essenciais, e não todo o padrão de consumo da família, ou seja, aquilo que não se pode deixar de pagar como alimentação, moradia, transporte e outras contas básicas.
"Se você ficar desempregado, naturalmente vai cortar despesas que não são essenciais. Você deixa de ir ao cinema, de jantar fora. A reserva de emergência precisa cobrir aquilo que você não pode deixar de pagar, como alimentação, moradia, plano de saúde e contas básicas", ressalta Mira. Na prática, isso significa que uma pessoa que gasta R$ 5 mil por mês, mas tem R$ 2,5 mil em despesas essenciais, deverá guardar, pelo menos, seis vezes a soma das contas básicas.
O valor da reserva também varia conforme o perfil da renda da pessoa. Para servidores públicos, por exemplo, uma soma equivalente a três meses dos gastos essenciais pode ser suficiente. Já os profissionais autônomos ou trabalhadores com renda variável costumam precisar de um colchão financeiro maior, que pode chegar a 12 meses ou mais.

Segundo o superintendente de negócios da cooperativa financeira Sicoob Credicom, Ericke Sandro Perim Duarte, quem ainda está começando não deve esperar sobrar muito dinheiro para começar a formar a sua reserva de emergência. "Pode ser R$ 10, R$ 20 ou 1% da renda. O importante é criar esse hábito", afirma Duarte.
Para ele, até mesmo as pessoas endividadas deveriam iniciar esse processo. "Quando ela sair dessa situação, esse comportamento já estará incorporado", destaca o superintendente de negócios da Sicoob Credicom.
Onde investir?
Depois de definir o valor da reserva, o próximo passo é escolher onde deixar esse dinheiro. Como o objetivo não é buscar a maior rentabilidade possível, mas garantir o acesso rápido aos recursos em caso de necessidade, a recomendação é priorizar os investimentos que combinem três características, diz Eduardo Mira, investidor profissional e analista CNPI.
- baixo risco;
- liquidez diária;
- indexados à Selic - rentabilidade de pelo menos 100% do CDI.
Segundo o analista, também não é necessário abrir conta em uma corretora para começar a investir. "O melhor investimento, principalmente para quem está começando, é aquele que é mais fácil. Todo mundo que já tem conta em banco costuma ter acesso a excelentes opções para formar uma reserva de emergência", afirma Mira. Ele diz que as alternativas mais utilizadas são os CDBs (Certificado de Depósito Bancário) com liquidez diária ou o Tesouro Selic (LFT).
Embora existam outros investimentos de renda fixa, como títulos prefixados e atrelados à inflação, especialistas costumam recomendar essas aplicações para a reserva de emergência porque combinam baixo risco e facilidade de resgate.
Como investir em um CDB ou no Tesouro Selic?
Os especialistas lembram que a maioria dos bancos tradicionais, bancos digitais, corretoras e cooperativas de crédito oferece uma área de investimentos no próprio aplicativo. É nela que o investidor pode comparar as aplicações disponíveis e contratar o investimento diretamente pelo celular.
Os CDBs são emitidos por bancos e podem ser contratados diretamente pelo aplicativo ou site da instituição financeira. As corretoras e as cooperativas de crédito também vendem esse tipo de investimento. Antes de investir, vale verificar se a aplicação conta com a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e se possui liquidez diária.
O valor mínimo de aplicação varia de acordo com cada banco, podendo oscilar entre R$ 1 e R$ 100. Também é importante conferir se há cobrança de taxas administrativas, que podem reduzir a rentabilidade líquida.
"O importante não é procurar um CDB que pague 105% ou 110% do CDI. Muitas vezes essas taxas fazem parte de promoções com limite de aplicação. O mais importante é montar a reserva de emergência", destaca Mira.
Já no Tesouro Selic, os títulos emitidos pelo Governo Federal podem ser adquiridos em frações correspondente a 1% (fração de 0,01) do preço total, que varia de acordo com o perfil do papel.
As aplicações de até R$ 10 mil por CPF no Tesouro Selic são isentas da taxa de custódia da B3, que é a empresa que gerencia os títulos públicos. Acima desse valor, a cobrança de 0,2% ao ano incide apenas sobre a parcela excedente. Confira no site oficial do Tesouro Direto os bancos e corretoras que negociam títulos do governo.
Vale destacar que tanto os CDBs quanto o Tesouro Selic estão sujeitos à cobrança de Imposto de Renda, que incide apenas sobre os rendimentos da aplicação. Além disso, a alíquota diminui conforme o tempo em que o dinheiro permanece investido (veja a tabela regressiva abaixo).
Quem não tem familiaridade com aplicativos ou plataformas de investimento também pode procurar atendimento presencial na agência onde mantém conta. Bancos, cooperativas de crédito e corretoras costumam oferecer orientação para clientes que desejam começar a investir.
Ao conversar com o gerente, vale informar que o objetivo é montar uma reserva de emergência, destacando que o dinheiro precisa estar disponível para saque imediato (D+0) em caso de necessidade emergencial.
Antes de contratar qualquer aplicação, é importante confirmar características como liquidez, prazo para resgate, rentabilidade e eventuais custos, para garantir que o investimento seja compatível com esse objetivo.
E a poupança?
Apesar de continuar entre as aplicações mais populares do país, a poupança costuma oferecer rendimento inferior ao de outras alternativas de renda fixa.
Segundo Eduardo Mira, além da rentabilidade inferior, existe outra diferença importante: "A poupança só credita os rendimentos na data de aniversário da aplicação. Se o resgate acontecer antes dos 30 dias, o investidor perde o rendimento daquele período. Já um CDB com liquidez diária rende todos os dias", destaca o profissional de investimentos.
Para Ericke Sandro Perim Duarte, da Sicoob, a poupança pode servir como porta de entrada para quem está criando o hábito de guardar dinheiro, mas deixa de ser a melhor alternativa quando comparada a outros investimentos de renda fixa. "A poupança transmite segurança e pode ser uma porta de entrada para quem está começando. Mas, quando se compara risco e retorno, produtos como Tesouro Direto, CDBs e letras tendem a oferecer rentabilidade maior", diz Duarte.
LCI e LCA são indicadas?
As Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) costumam atrair investidores por serem isentas de IR (Imposto de Renda) para pessoas físicas. No entanto, esses títulos não costumam ser a melhor opção para quem está começando a montar uma reserva de emergência, avalia Mira.
Desde as mudanças nas regras do CMN (Conselho Monetário Nacional), em 2025, as novas LCIs e LCAs passaram a ter prazo mínimo de resgate de seis meses, o que significa que o dinheiro fica indisponível para resgate nesse período.
Fora isso, é preciso considerar o prazo de aplicação nas comparações entre CDBs e LCIs ou LCAs. Isso porque os investimentos em CDBs recolhem IR sobre os rendimentos, seguindo uma tabela regressiva, enquanto LCIs e LCAs são isentos. "À medida que o prazo aumenta e a alíquota do imposto diminui, essa vantagem tributária tende a perder peso na comparação", diz Mira. Por isso, o especialista diz que a principal recomendação é concentrar a reserva de emergência em aplicações com liquidez diária.
O investimento vence, e depois?
Ao contrário da poupança, aplicações como Tesouro Selic, CDBs, LCIs e LCAs possuem data de vencimento, independentemente de terem ou não liquidez diária.
Quando esse prazo chega ao fim, o investimento é encerrado e o dinheiro, acrescido dos rendimentos, retorna para o investidor. Caso queira continuar aplicando os recursos, será necessário realizar um novo investimento.
Tem imposto? Entenda como funciona a tributação
Além da rentabilidade e da liquidez, outro fator importante na hora de escolher onde investir a reserva de emergência é a tributação.
No caso do Tesouro Selic e dos CDBs, o IR (Imposto de Renda) incide apenas sobre os rendimentos, nunca sobre o valor investido. A cobrança é feita automaticamente no momento do resgate e segue uma tabela regressiva: quanto mais tempo o dinheiro permanecer aplicado, menor será a alíquota.
Confira a tabela regressiva do IR:
- Até 180 dias: 22,5%
- De 181 a 360 dias: 20%
- De 361 a 720 dias: 17,5%
- Acima de 720 dias: 15%
Já as LCIs e LCAs são isentas de Imposto de Renda para pessoas físicas, o que pode torná-las mais atrativas para objetivos de médio e longo prazo.
E o IOF?
Na prática, quem mantém a reserva de emergência em investimentos de renda fixa por mais de 30 dias não paga IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O imposto afeta apenas resgates realizados durante o primeiro mês da aplicação.
Assim como o Imposto de Renda, ele incide somente sobre os rendimentos, nunca sobre o valor investido.
A alíquota é regressiva: começa mais alta nos primeiros dias e diminui diariamente até chegar a zero no 30º dia. Depois desse período, o investidor paga apenas o Imposto de Renda, conforme a tabela regressiva, e que é descontado automaticamente ao resgatar o investimento.

Selic, CDI, CDB... se perdeu nas siglas? Entenda o que significam
Selic: É a taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central. Ela influencia os juros cobrados em empréstimos, financiamentos e também o rendimento de diversos investimentos de renda fixa.
CDI (Certificado de Depósito Interbancário): É a taxa de juros dos empréstimos de um dia cobrada nos empréstimos entre os bancos. É uma taxa usada como referência para diversos investimentos de renda fixa. Quando um CDB rende "100% do CDI", significa que ele acompanha integralmente essa taxa, que costuma ficar muito próxima da Selic.
Tesouro Selic: É um título público emitido pelo governo federal, cuja rentabilidade acompanha a taxa Selic. Por reunir baixo risco e liquidez diária, costuma ser indicado para reservas de emergência.
CDB (Certificado de Depósito Bancário): É um investimento de renda fixa emitido por bancos. Ao aplicar em um CDB, o investidor empresta dinheiro para a instituição financeira e recebe uma remuneração em troca. Alguns CDBs permitem resgate a qualquer momento, enquanto outros exigem esperar até o vencimento.
LCI (Letra de Crédito Imobiliário): Título de renda fixa emitido por instituições financeiras para financiar o setor imobiliário. É isento de Imposto de Renda para pessoas físicas, mas atualmente possui prazo mínimo de seis meses, o que reduz sua utilidade para reservas de emergência.
LCA (Letra de Crédito do Agronegócio): Funciona de forma semelhante à LCI, mas os recursos são destinados ao financiamento do agronegócio. Também é isenta de Imposto de Renda para pessoas físicas e possui prazo mínimo de seis meses.
Liquidez: É a facilidade e a rapidez com que um investimento pode ser transformado em dinheiro. Quanto maior a liquidez, mais rapidamente o investidor consegue resgatar os recursos.
Liquidez diária: Significa que o dinheiro pode ser resgatado em qualquer dia útil, respeitando o horário de funcionamento da instituição financeira.
D+0: É a forma como o mercado financeiro informa o prazo para o dinheiro cair na conta após o resgate. No D+0, o valor é disponibilizado no mesmo dia da solicitação (desde que feita dentro do horário de processamento da instituição).Vencimento: É a data em que um investimento chega ao fim. Nessa ocasião, o investidor recebe de volta o valor aplicado acrescido dos rendimentos. Se quiser continuar investindo, será necessário reaplicar o dinheiro em um novo produto financeiro.
Renda fixa: Categoria de investimentos em que as regras de remuneração são conhecidas no momento da aplicação. Embora o rendimento possa variar em alguns casos, o investidor sabe previamente como ele será calculado.
Imposto de Renda (IR): Tributo cobrado sobre os rendimentos de investimentos como Tesouro Selic e CDBs. A alíquota diminui conforme o tempo da aplicação. LCIs e LCAs são isentas para pessoas físicas.
IOF (Imposto sobre Operações Financeiras): Tributo cobrado apenas quando o resgate ocorre antes de 30 dias da aplicação. Incide exclusivamente sobre os rendimentos e sua alíquota diminui diariamente até zerar no 30º dia.FGC (Fundo Garantidor de Créditos): Mecanismo que protege investidores em caso de quebra da instituição financeira. Cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição, respeitado o limite global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. A proteção vale para investimentos como CDBs, LCIs e LCAs, mas não para o Tesouro Selic, que é garantido pelo governo federal.
Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.