Pesquisas mostram Lula mais forte que em 2022, mas com desafio contra rejeição inédita

Principais pontos

  • Lula chega numericamente mais forte que em 2022 em 8 dos 10 estados pesquisados pela Quaest.
  • Apesar do avanço nas intenções de voto, o petista enfrenta rejeição inédita fora do Nordeste.
  • O crescimento nas intenções de voto pode não se converter em votos reais, a depender da taxa de abstenção
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente do Brasil
Source: Agência Brasil

O PT oficializou a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição no domingo, 2, em convenção realizada na capital paulista.

É a oitava vez que Lula é candidato à Presidência desde 1989 – em 2018, a candidatura não foi até o final, já que Lula estava preso e teve o nome barrado pelo TSE com base na Lei da Ficha Limpa.

Aos 80 anos, o petista vai em busca do seu quarto mandato, novamente em chapa com Geraldo Alckmin (PSB), e uma coligação com PSB, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede.

O maior rival, mostram as pesquisas, é Flávio Bolsonaro (PL), que oficializou a própria candidatura em convenção no dia 25 de julho, também em São Paulo, com o aval do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e inelegível desde a condenação por tentativa de golpe de Estado.

Com o calendário de convenções fechando em todo o país até o dia 5 e o registro das candidaturas na Justiça Eleitoral previsto para 15 de agosto, a campanha entra em sua fase formal.

Neste texto, o GSW Brasil faz um comparativo entre o desempenho de Lula nas pesquisas de 2026 e o das campanhas presidenciais anteriores em que ele foi candidato.

O que dizem os números até agora

Os dados da pesquisa mais recente da Genial/Quaest, divulgados entre os dias 28 e 30 de julho, indicam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inicia a campanha presidencial de 2026 em posição mais favorável se comparada à disputa de 2022 na maior parte dos estados.

Felipe Nunes, CEO da Quaest, argumentou em artigo publicado n’O Globo que a comparação correta deve usar o eleitorado apto como base, e não os votos válidos de 2022, já que os dois números partem de universos diferentes. Aplicado esse critério, Lula aparece à frente do patamar do pleito passado em oito dos dez estados pesquisados.

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Os maiores avanços estão em Pernambuco (de 51,9% para 58% do eleitorado apto, alta de 6,1 pontos percentuais), Ceará (de 55,8% para 60%, 4,2 pontos) e Goiás (de 31,7% para 35%, 3,3 pontos). 

Atrás deles vêm Pará (+2,7 pontos), Rio de Janeiro (+2,6), Bahia (+2,0), São Paulo (+1,8) e Rio Grande do Sul (+1,3). 

Em Minas Gerais o desempenho é idêntico ao de 2022, 38% nas duas medições. Só no Paraná ele está pior do que estava, caindo de 29,6% para 28%. 

Levando em conta o eleitorado de cada estado em 2022, os 44,9 milhões de votos que Lula obteve então equivaleriam hoje a cerca de 47,1 milhões, aplicando as intenções de voto atuais sobre a mesma base.

A base de comparação de 2022 já embutia abstenção relevante, cerca de um quinto a um quarto do eleitorado apto nos dez estados, somando abstenção e votos brancos e nulos.

Ou seja, esse crescimento nas intenções de voto pode não se transformar em votos reais, já que a parcela do eleitorado apto que hoje declara apoio a Lula continua girando em torno de 39%, praticamente o mesmo nível de 2022. Parte desse avanço acaba sendo compensada por indícios de menor disposição do eleitorado, principalmente fora do Nordeste, em comparecer às urnas.

A mesma pesquisa perguntou diretamente se Lula merece mais quatro anos de governo, e a resposta segue o mesmo desenho regional da intenção de voto. Maioria diz que sim na Bahia (57%), em Pernambuco (56%) e no Ceará (55%). Maioria diz que não em Minas Gerais (64%), São Paulo (67%), Rio de Janeiro (68%), no Rio Grande do Sul (69%), em Goiás (71%) e no Paraná (73%). O Pará é o único estado fora do Nordeste com resultado mais equilibrado, 45% a 55% contra a permanência de Lula.

Esse retrato estadual confirma o cenário nacional medido pela própria Quaest. Na pesquisa de 10 a 13 de julho, Lula tinha 45% das intenções de voto no segundo turno. Flávio Bolsonaro registrava 37%, oito pontos atrás. Foi a terceira queda seguida do senador na série mensal do instituto.

Como foram as outras seis campanhas

1989: Na primeira eleição direta pós-ditadura, Lula chegou ao segundo turno com 16% dos votos válidos no primeiro turno, superando Leonel Brizola por menos de um ponto percentual, e perdeu para Fernando Collor por 53% a 47%.

1994: Lula liderava as pesquisas até março. O lançamento do Plano Real, em julho, mudou o quadro: Fernando Henrique Cardoso decolou nas intenções de voto e venceu em primeiro turno, com 54% contra os 27% de Lula.

1998: Em 1998, o cenário se repetiu. FHC foi reeleito em primeiro turno, com 53% dos votos, contra 32% de Lula.

2002: Em 2002, Lula chegou a agosto em situação mais parecida com a atual: à frente nas pesquisas, mas sem vitória garantida, em uma corrida que teve ainda Ciro Gomes, José Serra e a fugaz candidatura de Roseana Sarney, interrompida por um escândalo envolvendo dinheiro em espécie. Lula venceu em segundo turno.

2006: Foi a eleição mais tranquila da carreira: Lula chegou à disputa com a economia em expansão e programas sociais consolidados e venceu a reeleição com folga sobre Geraldo Alckmin, então candidato do PSDB.

2018: Preso por decisão em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá, Lula teve sua candidatura registrada pelo PT e chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto mesmo atrás das grades. O TSE barrou a candidatura em setembro, com base na Lei da Ficha Limpa. Fernando Haddad assumiu a chapa faltando pouco mais de um mês para o primeiro turno e perdeu para Jair Bolsonaro.

2022: Lula venceu Bolsonaro por menos de dois pontos percentuais, a margem mais estreita de uma eleição presidencial desde a redemocratização.

O que muda em 2026

A comparação direta entre 2026 e 2022 tem limites, já que Jair Bolsonaro está preso, cumprindo pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado, e inelegível. Seu lugar na disputa foi ocupado pelo filho, o senador Flávio Bolsonaro, que recebeu o aval público do pai em novembro passado. Diferentemente de 2022, quando Lula enfrentava um presidente em exercício, o adversário de outubro concorre pela primeira vez à presidência.

Do lado dos recursos, o desequilíbrio é maior do que no pleito anterior. Do Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões partilhado entre os 30 partidos em 2026 – o mesmo total de 2022 –, o PL ficou com a maior fatia, R$ 881,7 milhões, contra R$ 615 milhões do PT, que também cresceu em relação aos R$ 499,6 milhões de quatro anos atrás.

No terreno econômico, os indicadores citados por analistas como um dos principais balizadores de voto – inflação e desemprego – estão em patamar mais favorável ao governo do que em 2022: taxa de desemprego na casa dos 6%, a mais baixa em uma década, e inflação ao consumidor perto de 5% ao ano, abaixo dos dois dígitos do início do governo Bolsonaro, ainda que acima da meta do Banco Central.

Politicamente, porém, a rejeição de Lula segue mais alta do que em qualquer outra de suas campanhas, e a idade (Lula completa 81 anos durante o mandato) é alvo recorrente entre adversários. A disputa também chega mais polarizada em termos de renda e região do que as de 2002 e 2006, com o Nordeste concentrando a base mais estável de Lula e o desempenho fora dessa região mais sujeito a oscilação.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.