Marcola, Gaspar e o desgaste para as campanhas de Lula e Flávio

Principais pontos

  • Ex-chefe de gabinete do presidente está na mira da PF por depósito de lobista, enquanto candidato a vice de Flávio é ligado a caso de estupro por governistas.
  • Na reta inicial do período oficial de campanha, casos representam desgaste político em potencial para Lula e Flávio.
  • Marcola se afastou da campanha do petista e Gaspar nega acusações.
Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e Alfredo Gaspar, candidato a vice de Flávio Bolsonaro
Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e Alfredo Gaspar, candidato a vice de Flávio Bolsonaro
Source: Arte/GSW Brasil sobre Ricardo Stuckert/PR e Câmara dos Deputados

As campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL) inauguraram o período oficial de disputa eleitoral administrando desgastes provocados por nomes estratégicos de seus grupos políticos.

No entorno do petista, o foco recai sobre Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência e um dos auxiliares mais próximos do mandatário. Já a campanha do senador tenta conter os efeitos das denúncias que envolvem o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido de última hora para concorrer a vice-presidente na chapa.

Embora os casos tenham naturezas distintas e estejam em fases diferentes de apuração, ambos colocam aliados dos presidenciáveis sob escrutínio e obrigam as campanhas de PT e PL a mobilizarem estratégias de reação.

O caso Marcola

Marco Aurélio havia deixado o governo para atuar diretamente na campanha de reeleição de Lula. Dias depois, passou ao centro do noticiário após a Polícia Federal identificar um repasse de Roberta Luchsinger, empresária ligada a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, para o assessor. A defesa do ex-chefe de gabinete afirma que os valores correspondem a um empréstimo particular, regularmente documentado, e nega qualquer irregularidade.

O episódio levou Marcola a pedir afastamento da coordenação da campanha presidencial enquanto os fatos são esclarecidos. Nos bastidores do PT, a avaliação é que a saída tem o objetivo de conter o potencial de desgaste para Lula.

O próprio presidente saiu em defesa do antigo auxiliar durante conversa com aliados. Conforme reportou o jornal O Globo, Lula afirmou que empréstimos entre amigos não configuram, por si só, irregularidade e defendeu que qualquer julgamento ocorra apenas após a conclusão das investigações.

Mesmo sem denúncia formal ou condenação, a oposição passou a explorar o caso Marcola, associando a investigação ao discurso de ética defendido pelo governo e dobrando a aposta no desgaste que Lulinha, investigado pela PF por suspeitas de tráfico de influência e corrupção, ainda pode causar ao pai.

Pressão ronda vice de Flávio

Do outro lado da disputa, a surpreendente escolha de Alfredo Gaspar para compor chapa com Flávio também abriu uma frente de desgaste para o PL.

Nos dias que sucederam ao anúncio, a "linha de frente" da militância petista resgatou uma queixa-crime apresentada em março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senador Soraya Thronicke (PSB-MS) que acusava o parlamentar de ter estuprado uma adolescente de 13 anos -- hoje com 21.

Na quinta-feira, 6, o STF (Supremo Tribunal Federal) determinou que Soraya apresente mais informações sobre sua acusação antes de decidir sobre sua validade enquanto denúncia. Por sua vez, a PGR (Procuradoria-Geral da República) solicitou diligências à Polícia Federal para aprofundar a apuração.

Gaspar negou as acusações. Sua defesa afirma que os fatos narrados não correspondem à realidade e o deputado pediu ao STF a realização de um exame de DNA para esclarecer o caso e evitar "imenso desgaste reputacional".

Aliados de Flávio argumentam que a investigação ainda está em fase preliminar e, em discurso que ressoa no bolsonarismo, associam o caso a uma "perseguição" sofrida pela família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Narrativas em disputa

Enquanto o grupo do opositor usa Marcola para aproximar o incumbente das investigações que associam seu filho ao escândalo do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o PT intensificou críticas à escolha de Gaspar para a vice do senador, que expressou publicamente a preferência por ter uma mulher na chapa.

Interlocutores das duas campanhas avaliam que os casos tendem a permanecer no centro da disputa nas próximas semanas, sobretudo porque atingem figuras de difícil dissociação dos candidatos -- não se tratam de aliados distantes.

Mais do que seus efeitos jurídicos, ainda dependentes da evolução das investigações, os dois episódios produzem um desgaste político cuja dimensão ainda será precificada. Em um pleito que se projeta acirrado -- na pesquisa mais recente divulgada pela Quaest, Lula teve 44% das intenções de voto no segundo turno, contra 39% de Flávio, vantagem no limite da margem de erro --, qualquer elemento fora de controle pode ser decisivo.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.