‘Grande Sertão: Veredas’: 70 anos da obra que dá voz ao Brasil profundo

Principais pontos

  • Publicado em julho de 1956, o romance de Guimarães Rosa narra as memórias do ex-jagunço Riobaldo, em linguagem que resgata a oralidade de moradores dos rincões de Minas Gerais, Goiás e Bahia.
  • Parte das travessias feitas pelo escritor formam o projeto Caminhos de Rosa, que permite conhecer paisagens do cerrado por meio de caminhadas, corridas, rotas de bicicleta e vivências em fazendas do sertão mineiro.
  • Com cerca de 230 mil hectares, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas é o único parque brasileiro cujo nome faz referência e homenagem a uma obra literária.
Visitante no Parque Nacional Grande Sertão Veredas
Criado em 1989, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas é o único no Brasil que faz referência a uma obra literária.
Source: Parque Nacional Grande Sertão Veredas

Obra fundamental da literatura brasileira, o romance “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, completa 70 anos neste mês. Ambientado em uma região que compreende Minas Gerais, Goiás e Bahia, o livro transformou a geografia, a linguagem e os conflitos de um sertão marcado por jagunços e coronéis em uma narrativa de alcance universal.

A história é contada por Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas travessias, batalhas, alianças e perdas. Ao reconstruir sua trajetória e a relação com o personagem Diadorim, o narrador procura compreender a existência do diabo, os limites entre o bem e o mal e a possibilidade de cada pessoa escolher o próprio destino.

Essas indagações estão diretamente ligadas ao território percorrido pelos personagens. O sertão não funciona apenas como cenário: condiciona os deslocamentos, impõe perigos, determina encontros e interfere na formação da consciência de Riobaldo. Rios, veredas, chapadas, fazendas, arraiais e caminhos constituem uma força central do romance.

O reconhecimento foi imediato. Publicado em 16 de julho de 1956 pela Livraria José Olympio Editora, “Grande Sertão: Veredas” recebeu o Prêmio Machado de Assis, concedido pelo Instituto Nacional do Livro, o Prêmio Carmen Dolores Barbosa, em 1956, e o Prêmio Paula Brito, em 1957. Traduzido para diversos idiomas, o romance consolidou Guimarães Rosa entre os autores centrais da literatura brasileira e ampliou internacionalmente o alcance de uma narrativa profundamente ligada à paisagem e à linguagem do sertão.

Cena da minissérie 'Grande Sertão', da Rede Globo, exibida originalmente em 1985.
A minissérie 'Grande Sertão', adaptação da obra de Guimarães Rosa, foi exibida originalmente em 1985.
Source: Globo/Divulgação
Tony Ramos faz o papel de Riobaldo, que conta a história. Bruna Lombardi interpreta Diadorim.
Em 'Grande Sertão', Tony Ramos faz o papel de Riobaldo, que conta a história. Bruna Lombardi interpreta Diadorim.
Source: Globo/Divulgação
A produção da Globo retratou guerras entre jagunços e a vida nas pequenas cidades de Minas Gerais, Goiás e Bahia.
A produção da Globo retratou guerras entre jagunços e a vida nas pequenas cidades de Minas Gerais, Goiás e Bahia.
Source: Globo/Divulgação

A obra também ganhou uma adaptação memorável da TV Globo em 1985. Com roteiro de Walter George Durst e direção de Walter Avancini, a minissérie teve Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi no papel de Diadorim. Gravada no sertão mineiro, "Grande Sertão" mobilizou centenas de profissionais e cerca de 1,8 mil figurantes da região para transportar à televisão as guerras entre jagunços, as paisagens e os dilemas do romance. Seus 25 episódios estão atualmente disponíveis no Globoplay.

Um sertão real e imaginário

Estudos já identificaram mais de 400 localidades reais citadas em “Grande Sertão: Veredas”, entre cidades, povoados, propriedades rurais e acidentes geográficos. Algumas correspondências ainda são discutidas, mas os rios Urucuia e São Francisco são referências incontestáveis.

A cartografia do romance inclui Morro da Garça, Três Marias, Curvelo, Lassance, Pirapora, São Francisco, Januária e Cordisburgo, terra natal de Guimarães Rosa. Também aparecem a Serra das Araras, em Chapada Gaúcha, e Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro associado à batalha final do livro.

Parte dos caminhos percorridos por Guimarães Rosa pode ser conhecido pelos leitores. Criado em 2014, o projeto Caminhos de Rosa promove experiências pelo território que inspirou o escritor, com caminhadas, corridas, trajetos de bicicleta e travessias que incluem encontros com moradores e hospedagens em fazendas da região. Os percursos atravessam paisagens e comunidades do sertão mineiro e uma das rotas de longa distância chega à região do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, criado pelo governo federal em 1989.

Estação ferroviária Cordisburgo
Projeto Caminhos de Rosa resgata as viagens de Guimarães Rosa, que nasceu em Cordisburgo (MG), por meio de experiências como travessias, corridas e desafios de bicicleta.
Source: Reproduçãoo/Instagram/ Caminhos de Rosa

Essa unidade de conservação é a única no país a homenagear uma obra literária. O parque nacional preserva parte da paisagem das Gerais retratada no livro, além de proteger a biodiversidade e os recursos hídricos do Cerrado. Ampliado em 2004, ele ocupa cerca de 230 mil hectares entre Minas Gerais e a Bahia.

Vale explicar que as veredas são áreas úmidas que se formam em terrenos onde a água aflora, geralmente marcadas pela presença do buriti, uma palmeira de tronco alto que, na região, costuma ter entre 12 e 15 metros. No romance, essas formações orientam as travessias, oferecem abrigo e participam diretamente da experiência dos personagens.

A linguagem como centro da obra

A editora Companhia das Letras lançou a edição comemorativa de 70 anos
A editora Companhia das Letras lançou a edição comemorativa de 70 anos.
Source: Companhia das Letras/ Divulgação

Se a paisagem oferece o chão do romance, é a linguagem que lhe dá existência. Guimarães Rosa combinou expressões populares, regionalismos, palavras antigas, alterações de sentido, construções sintáticas incomuns e vocábulos inventados.

Quando o livro foi lançado, parte da crítica reagiu com estranhamento. A fala dos personagens chegou a ser descrita como uma língua “de outro planeta”. Para o biógrafo de Guimarães Rosa, o jornalista Leonêncio Nossa, essa avaliação revelava principalmente o desconhecimento de setores da intelectualidade sobre a maneira de falar das populações do interior brasileiro.

Segundo o biógrafo, em entrevista dada à Agência Brasil, Rosa rejeitava a ideia de ter inventado sozinho uma língua. Ele afirmava que os vaqueiros de Minas Gerais, da Bahia e de Goiás já utilizavam muitas daquelas formas de expressão.

A linguagem do romance, portanto, não é uma simples transcrição da oralidade. Rosa reorganizou sons, ritmos e expressões para criar a fala de Riobaldo. O narrador hesita, repete ideias, corrige lembranças, interrompe raciocínios e muda de direção enquanto tenta atribuir sentido ao passado.

Nossa também observa que “nonada”, palavra que abre o livro e costuma ser tratada como criação do escritor, aparecia anteriormente em jornais brasileiros. Embora tenha produzido neologismos, Rosa também recuperou palavras que tinham deixado de circular amplamente.

A abertura com “nonada” antecipa um dos movimentos essenciais do romance. Uma palavra aparentemente estranha conduz o leitor a uma língua que, embora profundamente trabalhada pelo escritor, tem raízes na história e na fala do país. Rosa não apenas inventou formas de expressão: preservou e renovou uma parte do português brasileiro.

O escritor mineiro levou aproximadamente dez anos para concluir “Grande Sertão: Veredas”. No mesmo período, trabalhou em “Corpo de Baile”, ciclo de novelas também publicado em 1956. De acordo com Leonêncio Nossa, o romance teria surgido inicialmente como uma das histórias desse conjunto, mas ganhou dimensão suficiente para se tornar uma obra independente.

Edição comemorativa

A Companhia das Letras lançou uma edição especial comemorando os 70 anos, com 608 páginas. O livro tem novo projeto gráfico e capa elaborada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes. Ele traz também um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre os caminhos dos rascunhos até a forma final do romance.

A edição comemorativa conta ainda com depoimentos de leitores ilustres que foram fortemente influenciados pela obra: Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. Os preços da obra ficam em R$ 209,90 (livro físico) e R$ 44,90 (e-book).

A celebração dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na Companhia das Letras inclui um audiolivro narrado pelo ator Caio Blat, com trilha sonora e entradas de viola de Ivan Vilela, já disponível nas principais plataformas de áudio.

Em agosto, será realizado, em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, um ciclo de debates sobre o livro. Uma biografia de João Guimarães Rosa escrita por Gustavo de Castro, poeta, escritor e professor da Universidade de Brasília (UnB), também deve ser publicada no fim do ano. O livro narra em detalhes a vida do escritor, médico e diplomata que viria a se tornar um dos nomes mais fascinantes da literatura brasileira.

Outra novidade é que o livro ganhará novas traduções em 2027. Em inglês, a australiana Alison Entrekin responde pelo trabalho de “Vastlands: The crossing”, título que substituirá a da versão de 1963, “The devil to pay in the backlands”. O alemão Berthold Zilly responde por “Großer Sertão: Querungen”.   

Quem foi Guimarães Rosa

Guimarães Rosa em fotos de um acervo digital
Guimarães Rosa combinou expressões populares, regionalismos e palavras antigas e estabeleceu uma linguagem que dá voz a personagens inspirados em pessoas que conheceu em suas viagens.
Source: Museu Casa Guimarães Rosa/Acervo Digital

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa, mudou-se aos 10 anos para Belo Horizonte. Formou-se em medicina em 1930 e trabalhou como médico antes de ingressar na carreira diplomática.

Sua estreia literária ocorreu em 1929, com a publicação do conto “O mistério de Highmore Hall” na revista O Cruzeiro. Em 1936, a coletânea de poemas “Magma”, que permaneceria inédita durante sua vida, recebeu o Prêmio Academia Brasileira de Letras.

Como diplomata, trabalhou em Hamburgo, Bogotá e Paris e representou o Brasil em conferências internacionais. Posteriormente, ocupou diferentes funções no Ministério das Relações Exteriores e assumiu, em 1962, a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras.

A consagração literária começou com “Sagarana”, publicado em 1946. A coletânea renovou o regionalismo brasileiro ao trabalhar com paisagens e materiais de origem local por meio de uma linguagem experimental e de temas universais.

Em 1956, Rosa publicou “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”.  Com “Primeiras estórias”, de 1962, recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil.

Guimarães Rosa foi eleito para a Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras em 8 de agosto de 1963, na sucessão de João Neves da Fontoura. Adiou a posse por quatro anos e foi recebido por Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, aos 59 anos.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.