Gaza realiza funeral coletivo para vítimas mortas durante a guerra

Principais pontos

  •  A Faixa de Gaza realizou um dos maiores funerais coletivos desde o início da guerra, com o enterro de 112 pessoas cujos corpos foram retirados dos escombros quase três anos após os bombardeios.
  • Equipes da Defesa Civil trabalharam durante 17 dias para recuperar os restos mortais, muitas vezes escavando concreto e estruturas metálicas com as próprias mãos. Mais de oito mil corpos ainda estariam sob os escombros.
  • Um relatório do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU estima que Gaza acumula cerca de 68 milhões de toneladas de destroços e que mais de 60% da população perdeu suas casas desde o início da guerra.
Palestinos participam do funeral coletivo de 112 pessoas, cujos corpos foram retirados dos escombros de prédios atingidos por bombardeios em novembro de 2023.
Palestinos participam do funeral coletivo de 112 pessoas, cujos corpos foram retirados dos escombros de prédios atingidos por bombardeios em 2023.
Source: AFP/ OMAR AL-QATTAA

Em um terreno desobstruído entre prédios destruídos por bombardeios na Cidade de Gaza, fileiras de bandeiras palestinas foram cuidadosamente estendidas sobre os restos mortais de dezenas de pessoas que seriam enterradas nesta terça-feira, 4.

Centenas de pessoas participaram da cerimônia fúnebre. Música foi tocada por alto-falantes no local onde ataques israelenses, no fim de 2023, mataram 112 pessoas cujos corpos foram retirados agora dos escombros, informou a Defesa Civil de Gaza.

Ahmed Abu Sharia, integrante de uma extensa família de pessoas que estavam sendo enterradas, disse à AFP que o funeral finalmente proporcionaria um encerramento para os parentes.

“Viemos lamentar nossos mártires, crianças, mulheres e idosos”, afirmou.

“Este é um funeral do povo palestino, porque eles são vítimas. Há pessoas sob os escombros que não lutaram nem portavam armas”, acrescentou.

O grupo militante palestino Hamas lançou um ataque contra Israel em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de 1.221 pessoas, segundo levantamento da AFP baseado em dados oficiais israelenses.

Os militantes também levaram 251 reféns para Gaza.

A campanha militar de retaliação de Israel em Gaza matou mais de 73 mil pessoas, de acordo com o Ministério da Saúde local, subordinado ao Hamas. Os números do órgão são considerados confiáveis pelas Nações Unidas.

Um cessar-fogo entrou em vigor em outubro, mas as negociações para encerrar definitivamente a guerra estão paralisadas, e as forças israelenses atualmente controlam quase 70% do território.

Escavações com as próprias mãos

O porta-voz da Defesa Civil, Mahmoud Bassal, informou que 44 dos corpos recuperados durante duas semanas de julho eram de crianças e que todos pertenciam à mesma família.

“Nossas equipes trabalharam continuamente durante 17 dias para recuperar esses 112 corpos e restos mortais debaixo dos escombros”, disse Mohammad Al-Mughayyir, diretor de operações da Defesa Civil.

Ele acrescentou que as equipes frequentemente precisaram “escavar concreto e estruturas de aço retorcidas com as próprias mãos”.

“Em alguns casos, esqueletos completos permaneceram intactos, mantidos unidos apenas pelas roupas.”

Bassal afirmou que mais de oito mil corpos ainda permanecem presos sob os escombros de Gaza.

Duas escavadeiras

A Defesa Civil, que atua como força de resgate sob a autoridade do Hamas, informou que grande parte do trabalho de recuperação foi possível graças a duas escavadeiras alugadas pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).

Pat Griffiths, porta-voz do CICV em Jerusalém, confirmou à AFP que a organização alugou “duas das únicas escavadeiras disponíveis para esse tipo de trabalho em Gaza”, pertencentes ao setor privado local, para auxiliar na operação.

A Defesa Civil de Gaza e organizações como o CICV reclamam há muito tempo que Israel, que controla todos os pontos de entrada no território palestino, não permite a entrada de equipamentos e maquinário de construção em quantidade suficiente para realizar a retirada dos corpos.

Bombardeios aéreos e disparos de artilharia continuam ocorrendo quase diariamente em Gaza, apesar do cessar-fogo.

Pelo menos 1.252 palestinos morreram desde a trégua, segundo o Ministério da Saúde do território.

No funeral coletivo desta terça-feira, um dos maiores já organizados em Gaza, homens se alinharam em silêncio sobre a areia para as orações.

Os restos mortais foram colocados sobre macas e cobertos com bandeiras. Havia fotografias das vítimas que puderam ser identificadas.

Misturados aos escombros

Um integrante da família Al-Husayneh, parente de pessoas que seriam enterradas, disse à AFP que não espera que os demais corpos sejam encontrados.

“O restante dos corpos das vítimas foi vaporizado, e seus ossos e carne se misturaram aos escombros de concreto”, afirmou o homem, que preferiu não revelar seu nome por razões de segurança.

“Por que Israel matou tantas crianças pequenas? Não havia nada nelas que pudesse justificar que fossem alvo de ataques.”

A Avaliação Rápida de Danos e Necessidades em Gaza, publicada em abril pelo Banco Mundial, pela União Europeia e pela ONU, estimou que cerca de 68 milhões de toneladas de escombros de edifícios destruídos ou danificados estão espalhadas pela Faixa de Gaza.

Segundo o relatório, mais de 60% dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza perderam suas casas nos quase três anos desde o início da guerra.

As restrições impostas aos veículos de imprensa e o acesso limitado à Faixa de Gaza impedem que a AFP verifique de forma independente os números de mortos ou faça uma cobertura livre da violência no território.

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.

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