Estreito de Ormuz em compasso de espera; ameaças rondam acordo

Principais pontos

  • Negociações para reabrir o Estreito de Ormuz entram em fase decisiva, mas divergências sobre o controle da rota mantêm o acordo cercado de incertezas.
  • Enquanto Donald Trump volta a ameaçar o Irã e fala em "última chance", Teerã afirma que não pretende ampliar a guerra, embora mantenha posição firme nas negociações.
  • Relatos de redução dos estoques de mísseis de longo alcance dos Estados Unidos aumentam a pressão por uma solução diplomática para um conflito que segue sem desfecho.
O destróier de mísseis guiados USS Delbert D. Black lança um míssil de ataque terrestre Tomahawk em apoio à Operação Epic Fury, em 28 de fevereiro.
O destróier de mísseis guiados USS Delbert D. Black lança um míssil de ataque terrestre Tomahawk em apoio à Operação Epic Fury, em 28 de fevereiro.
Source: U.S. Navy

As negociações para reabrir o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas para o transporte mundial de petróleo, entraram em fase decisiva, mas ainda há muitas incertezas quanto a um acordo. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que há possibilidade de um acordo com o Irã ser alcançado ainda nesta terça-feira, 4, ou na quarta-feira, 5. Ao mesmo tempo, declarações de líderes dos dois países e divergências sobre o controle da passagem mostram que o entendimento ainda está longe de ser garantido.

"Estamos em negociações com os iranianos, e acho que há uma chance de chegarmos a um acordo para abrir o estreito e avançarmos em direção a uma situação mais normalizada neste conflito", disse Bessent em entrevista à CNBC.

O principal impasse continua sendo quem exercerá autoridade sobre a via marítima. Segundo uma autoridade iraniana ouvida pela Reuters nesta terça-feira, 4, Teerã negocia com Omã um modelo que lhe daria controle sobre todo o tráfego de entrada de navios comerciais no estreito, além de visibilidade sobre as embarcações que deixam a região e poder para intervir quando considerar necessário.

Pela proposta em discussão, a autorização para saída dos navios seria concedida por Omã, mas apenas após notificação às autoridades iranianas. A mesma fonte afirmou que o Irã dificilmente aceitará qualquer alternativa que não preserve esse nível de controle. No fim de semana, Teerã informou que o plano conjunto com Omã havia entrado na etapa final de negociações.

Os Estados Unidos, por outro lado, defendem que a navegação seja restabelecida sem restrições e rejeitam qualquer arranjo que reconheça soberania exclusiva iraniana sobre a rota, considerada estratégica para o abastecimento global de energia.

Guerra de versões

Enquanto diplomatas tentam destravar as negociações, Washington e Teerã mantêm discursos conflitantes. Na segunda-feira, 3, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, salientou que as conversas representam a "última chance" para que o Irã aceite um acordo. Ele chegou a dizer que pretendia dar a Teerã "todas as últimas chances antes da decapitação" e acusou a liderança iraniana de enviar sinais contraditórios ao solicitar reuniões reservadas enquanto negava publicamente qualquer negociação.

Trump também declarou que o bloqueio ao Estreito de Ormuz seria mantido até que houvesse um entendimento ou a "rendição total" do governo iraniano. Nesta terça-feira, 4, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, declarou que o país defenderá seu território, mas não pretende ampliar a guerra no Oriente Médio.

Estoques de mísseis aumentam pressão

Outro fator reforça a pressão por uma solução diplomática. Segundo reportagem da Reuters, o exército dos Estados Unidos consumiu grande parte de seus estoques de mísseis táticos de longo alcance durante os cinco meses de guerra contra o Irã.

Entre as armas mais utilizadas estão os ATACMS e os Precision Strike Missile (PrSM), sistemas empregados em ataques de precisão e considerados estratégicos também para outros cenários militares, como um eventual confronto envolvendo a China.

De acordo com fontes ouvidas pela agência de notícias, líderes militares norte-americanos vêm alertando a Casa Branca há semanas sobre a redução dos estoques de munições de alta precisão e de sistemas defensivos, como os interceptadores Patriot. Uma autoridade do governo, contudo, contestou que esse tenha sido o principal motivo para a suspensão de uma nova ofensiva de grande escala, atribuindo a decisão também à pressão exercida por aliados dos Estados Unidos no Golfo.

Aparentemente, as negociações seguem em andamento e ainda não há consenso sobre o futuro do Estreito de Ormuz nem sobre o modelo de gestão da rota marítima. 

Mudanças de postura de Trump após suas ameaças contra o Irã

Donald Trump fez algumas das ameaças públicas mais agressivas de ação militar já feitas por um presidente dos Estados Unidos na história recente. No entanto, também voltou atrás em muitas delas.

As declarações do presidente republicano sobre a guerra contra o Irã mudaram de forma dramática e rápida em várias ocasiões desde o início do conflito, em 28 de fevereiro.

Ele declarou repetidamente vitória ao afirmar que as capacidades militares iranianas tinham sido completamente derrotadas, para depois alterar o cronograma da guerra ou ameaçar Teerã com novos ataques.

Em 17 de junho, Trump elogiou os novos líderes iranianos como "muito inteligentes" e "muito menos radicalizados" do que seus antecessores, mortos em ataques aéreos americanos e israelenses.

No entanto, o presidente norte-americano demonstrou frustração em 8 de julho quando disse que "não queria mais lidar com eles" porque "são lixo".

A AFP reuniu alguns exemplos de ameaças de Trump contra o Irã e de como ele posteriormente suavizou sua posição.

21 de março

"Se o Irã não ABRIR COMPLETAMENTE, SEM AMEAÇAS, o Estreito de Ormuz dentro de 48 HORAS a partir deste exato momento, os Estados Unidos atacarão e destruirão suas diversas USINAS DE ENERGIA, COMEÇANDO PELA MAIOR DELAS!"

A ameaça de Trump, publicada em sua plataforma Truth Social, causou impacto porque um ataque deliberado contra usinas de energia, consideradas infraestrutura civil essencial, é amplamente visto como crime de guerra.

23 de março

Dois dias depois, Trump prorrogou o prazo em cinco dias, citando "conversas muito boas e produtivas" com o Irã. Em seguida, suspendeu o "período de destruição das usinas de energia por 10 dias", até 6 de abril, alegando que havia negociações diplomáticas em andamento.

5 de abril

Com o prazo da prorrogação de 10 dias chegando ao fim, Trump publicou uma mensagem repleta de palavrões no Domingo de Páscoa:

"Abram a porra do estreito, seus bastardos malucos, ou vão viver no inferno."

Ele concluiu a mensagem dizendo: "Louvado seja Alá."

7 de abril

"Toda uma civilização morrerá esta noite, para jamais ser recuperada", anunciou Trump em uma publicação que muitos interpretaram como uma ameaça de aniquilar o Irã e sua população de cerca de 90 milhões de habitantes.

7 de abril, horas depois

"Aceito suspender os bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas", disse Trump, ao aprovar uma proposta de trégua apresentada pelos mediadores da guerra após conversar com líderes do Paquistão.

11 de junho

"Os Estados Unidos atacarão o Irã... MUITO DURAMENTE ESTA NOITE" e "em algum momento em um futuro não muito distante tomaremos a ilha de Kharg" e outras instalações da infraestrutura petrolífera, publicou Trump na Truth Social.

11 de junho, cinco horas depois

Cinco horas depois, Trump afirmou que "cancelou os ataques e bombardeios programados contra o Irã para esta noite", citando avanços nas negociações para alcançar um acordo destinado a encerrar a guerra.

Em junho, foi assinado um acordo provisório para pôr fim aos combates, mas, um mês depois, o conflito voltou a se intensificar.

O Irã atacou instalações americanas no Oriente Médio, enquanto Washington bombardeou defesas costeiras iranianas e passou a incluir entre seus alvos pontes e outras infraestruturas.

31 de julho

"Nós vamos atingi-los com muita força, e eles sabem que, em algum momento, vão dizer: 'Não aguentamos mais isso'", afirmou Trump durante uma reunião de gabinete na sexta-feira.

1º de agosto

"O Irã e outros países do Oriente Médio acabaram de nos pedir para adiar qualquer ataque", disse Trump. Ele acrescentou que "os parâmetros de um acordo foram aceitos".

A imprensa estatal iraniana negou categoricamente que a República Islâmica tivesse feito tal pedido.

Com AFP

Esta matéria foi escrita e editada pela equipe da Global South World, você pode entrar em contato conosco aqui.